Bom trabalho!
Prof. Drummond
ENTREVISTA DA 2ª - ZBIGNIEW BRZEZINSKI
| Folha de S. Paulo - 12/04/2010 |
"Não tenho ilusão sobre fim rápido da bomba atômica" Estrategista veterano da política externa dos EUA diz que negociação com Irã deve ser mais ampla GRANDE estrategista da política externa americana no século 20, Zbigniew Brzezinski defende negociações amplas sobre o programa nuclear do Irã, em que o país receba garantias de que não será atacado ao abrir mão da bomba. Ele afirma que os EUA devem tomar a frente de um plano para a criação do Estado palestino, porque o conflito ameaça a segurança americana, e demonstra ceticismo sobre a meta, expressa pelo presidente Barack Obama, de pôr fim aos arsenais atômicos. Brzezinski diz que os EUA não pretendem abdicar de sua hegemonia: "Se a atual proeminência da América entrasse em declínio rápido, todo o mundo seria lançado no caos político e econômico". CLAUDIA ANTUNES DA SUCURSAL DO RIO Como assessor de Segurança Nacional do presidente democrata Jimmy Carter (1977-1981), Zbigniew Brzezinski contabilizou uma vitória importante e um grande revés no Oriente Médio: o acordo de paz Israel-Egito, o primeiro entre o Estado judeu e um vizinho árabe, em 1978; e a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, com a tomada de reféns na Embaixada dos EUA, que teve peso decisivo para a vitória do republicano Ronald Reagan na eleição presidencial de 1980. A região e os dois países, Israel e Irã, continuam nos cálculos de Brzezinski, que em março esteve na Casa Branca, com outros antigos assessores presidenciais, para tratar do assunto com o atual conselheiro de Segurança Nacional, general James Jones, e Barack Obama. A urgência de um acordo de paz na Palestina e o programa nuclear iraniano foram os principais temas desta entrevista à Folha de um Brzezinski de voz firme, aos 82 anos. FOLHA - O sr. é um dos veteranos da política externa americana que propuseram que Obama apresente um plano pronto para a solução de dois Estados do conflito israelense-palestino. Acredita que ele fará isso? ZBIGNIEW BRZEZINSKI - Eu não sei. FOLHA - Por que defende essa abordagem? BRZEZINSKI - Porque acho que um arranjo de paz no Oriente Médio é de interesse de todas as partes envolvidas. Os EUA estão cada vez mais ameaçados pelo radicalismo e o extremismo na região, e parte disso é provocada pelo conflito contínuo entre Israel e os palestinos. Israel precisa de paz para se tornar uma parte aceita do Oriente Médio, no qual viva em segurança e prospere e possa até mesmo se tornar a Cingapura da região. E os palestinos têm direito à dignidade política, à independência política e a um território nacional. FOLHA - E os dois lados, sozinhos, não poderiam alcançar um acordo? BRZEZINSKI - Isso é absolutamente certo. A questão é que esse conflito agora se prolonga por várias décadas, e todo esforço de paz baseado apenas na negociação entre os dois lados fracassou. FOLHA - Faz sentido negociar sem incluir o Hamas? BRZEZINSKI - De uma forma ou de outra, os elementos extremistas dos dois lados terão de ser envolvidos, e, se a acomodação proposta responder aos interesses básicos tanto de Israel quanto do público árabe, os extremistas acabarão isolados politicamente. FOLHA - Acredita na chance de o Hamas aderir a um acordo? BRZEZINSKI - Se o acordo parecer justo e atraente para uma porção significativa dos palestinos, e se ele trouxer benefícios tangíveis, acredito que o Hamas pode muito bem evoluir. Mas é algo que nunca saberemos se acontecerá se não tentarmos fazer acontecer. FOLHA - Houve esse choque recente entre Obama e o premiê Netanyahu após o anúncio de construções em Jerusalém Oriental. Não está claro, no entanto, se Israel vai suspender as construções. Qual deve ser o próximo passo dos EUA? BRZEZINSKI - Em geral, eu apoio a posição que Obama adotou até agora, e veremos como Israel responde às propostas americanas mais recentes. FOLHA - O balanço de forças dentro dos EUA favorece que haja mais pressão sobre Israel? BRZEZINSKI - Eu acho que o povo americano em geral é a favor de uma solução pacífica, mas apoiar uma solução pacífica não é a mesma coisa que pressionar Israel. Uma solução requer compromissos tanto de Israel quanto dos palestinos. O problema é que nenhum dos dois lados parece disposto a dar o primeiro passo. A equipe de Obama está penosamente consciente desse fato. FOLHA - As últimas iniciativas de Obama na questão nuclear contêm uma mensagem para o Irã suspender seu programa atômico. Ele será bem-sucedido? BRZEZINSKI - Não tenho certeza de que estamos pedindo ao Irã que suspenda seu programa nuclear [o país tem o direito a tê-lo, como signatário do Tratado de Não Proliferação]. Acho que pedimos ao Irã provas convincentes e que concorde com acordos com credibilidade para dar à comunidade internacional a confiança de que seu programa não está destinado à produção de armas atômicas. FOLHA - O sr. já disse que o programa nuclear do Irã deveria ser negociado num quadro em que os iranianos receberiam garantias de segurança. Obama não encampou essa iniciativa. Sustenta essa proposta? BRZEZINSKI - Eu apoio a inclinação de Obama de negociar com o Irã, mas eu era a favor no passado e sou ainda hoje de negociações de maior amplitude, nas quais várias grandes questões, incluindo a segurança regional e as relações econômicas, sejam tratadas simultaneamente às discussões específicas sobre a questão nuclear. FOLHA - O que está impedindo o governo Obama de fazer isso? BRZEZINSKI - Em parte, a falta de uma resposta palpável do Irã. FOLHA - Existem outros fatores? BRZEZINSKI - Pode haver alguma hesitação em ampliar de modo prematuro a pauta de negociações, mas minha opinião sobre isso é diferente da do governo. FOLHA - O Itamaraty tem insistido em que há espaço para um pacto no qual o Irã entregaria parte de seu estoque de urânio pouco enriquecido em troca de combustível para seu reator de uso médico. A Turquia seria intermediária dessa troca. A posição brasileira é ingênua? BRZEZINSKI - Eu não conheço a posição brasileira precisamente. Mas do que eu já ouvi sobre ela, e, pela sua descrição, me parece que representa um ponto de vista que deveria ser levado em consideração. FOLHA - Brasil e Turquia, com cadeiras não permanentes no Conselho de Segurança, dizem que gostariam de ver mais negociações antes de novas sanções ao Irã. Se aprovadas, as sanções darão resultado? BRZEZINSKI - Não tenho como saber que tipo de sanções será aprovado. Haverá negociações, e certamente haverá diferentes posições sobre a questão. Também sabemos que sanções demoram bastante tempo para ter efeito, e que é melhor que sejam acompanhadas por negociações sérias. FOLHA - Alguns analistas nos EUA dizem que é inevitável que o Irã obtenha arma atômica e que será preciso conviver com isso. Concorda? BRZEZINSKI - Eu espero que isso não aconteça, porque acho que seria desafortunado, e poderia criar tensões muito sérias nas relações internacionais. Ao mesmo tempo, tenho confiança em que poderemos conter qualquer nova potência nuclear, assim como contivemos por muitos anos potências perigosas e poderosas como a União Soviética stalinista e a China de Mao Tsé-tung. [ele se refere ao conceito de contenção, da Guerra Fria, em que o poderio bélico é usado não em conflitos, mas para dissuadir o oponente de atacar]. FOLHA- Como o senhor avalia a nova estratégia nuclear de Obama? É otimista em relação ao objetivo de pôr fim aos arsenais atômicos? BRZEZINSKI - Eu acredito que as iniciativas adotadas recentemente são uma contribuição positiva para um mundo que se torne cada vez menos dependente, por um período prolongado, de armas nucleares. Mas não tenho nenhuma ilusão de que o movimento nessa direção será rápido e não tenho meios de prever quando as armas atômicas desaparecerão de todo, se é que isso acontecerá, e de qualquer forma com certeza não será em pouco tempo. FOLHA - China e EUA são interdependentes na economia. Mas setores nos EUA demonstram preocupação de que a China ameace o domínio militar americano no Pacífico. O sr. teme o desafio militar chinês? BRZEZINSKI - Não há dúvida de que a relação entre os EUA e a China tem importância enorme, talvez central, para os dois países. E eu sei que a China, em longo prazo, está destinada a ter uma corporação militar cada vez mais poderosa. No entanto, acho que, neste estágio, análises alarmistas não são acuradas nem propiciam a manutenção de uma relação bilateral estável e responsavelmente cooperativa. FOLHA- O século 20 foi o século americano. O sr. acredita que os EUA terão a capacidade de manter seu papel proeminente nas questões internacionais no futuro próximo? BRZEZINSKI - No futuro próximo, com certeza. Os EUA não estão se preparando para abdicar. Mas o futuro próximo são no máximo 20 anos. O que virá depois é impossível prever com confiança. Mas uma coisa é clara para mim: se a atual proeminência da América entrasse em declínio rápido, todo o mundo seria lançado no caos político e econômico. Folha opinião São Paulo, domingo, 21 de março de 2010 Irã: Lula não deve ceder à pressão dos EUA MARK WEISBROT Lula busca todos os lados na disputa pois tenta exercer o papel de mediador. A equipe de Obama tem dificuldade em entender esse conceito O PRESIDENTE Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo criticado recentemente por adversários por negar-se a participar da campanha dos Estados Unidos pela adoção de sanções intensificadas sobre o Irã. Recentemente Washington passou de uma breve fase de "engajamento" com o Irã em torno do programa nuclear iraniano para a atitude mais agressiva de ameaças e confrontos, que foi a estratégia seguida da administração Bush. Lula vem argumentando que isso é contraproducente. O artigo "Visita indesejável" ("Tendências/Debates", 23/11/09), do governador de São Paulo, José Serra, resume os argumentos apresentados contra Lula. Serra ataca Lula por ter recebido Ahmadinejad, dizendo que a eleição do presidente iraniano foi "notoriamente fraudulenta", que seu governo é repressivo e que ele nega a existência do Holocausto. Na realidade, a primeira acusação é extremamente implausível, como sabe qualquer pessoa que tenha examinado as evidências. A margem de vitória foi de 11 milhões de votos e centenas de milhares de pessoas testemunharam a contagem. Os resultados foram condizentes com as pesquisas de intenção de voto e com as pesquisas de boca de urna. Não há dúvida de que o governo iraniano é repressivo, embora se possa argumentar que não é mais repressivo do que o de certos aliados dos EUA. É o caso do Egito, que ultimamente vem prendendo centenas de ativistas e candidatos oposicionistas para afastá-los da próxima eleição. Quanto à negação do Holocausto por parte de Ahmadinejad, vale lembrar que Lula a condenou fortemente. Deveria Lula recusar um encontro com Hillary Clinton, que apoiou a invasão e a ocupação do Iraque? Essa guerra completamente desnecessária já matou mais de 1 milhão de pessoas, segundo as estimativas mais confiáveis. Isso é crime, assim como o são as mortes contínuas de civis cometidas por forças dos EUA no Afeganistão. Lula se reúne com todos os lados na disputa porque está tentando exercer um papel de mediador para impedir outra guerra desnecessária. É isso o que fazem os mediadores. A equipe de Obama, assim como a do presidente George W. Bush, tem dificuldade em compreender esse conceito. Ela adota uma abordagem "Poderoso Chefão" para as relações internacionais: "Vamos lhes fazer uma oferta que vocês não poderão recusar". A abordagem da equipe de Lula é oposta, algo que pode dever-se a sua experiência sindical: ele procura o diálogo, as negociações e as concessões, visando solucionar conflitos. Serra também ataca Lula por ter se recusado a reconhecer o governo de Honduras, eleito sob uma ditadura, ao mesmo tempo em que se reunia com Ahmadinejad. As duas situações, entretanto, não são comparáveis: a derrubada militar do governo hondurenho eleito é uma ameaça à democracia em toda a América Latina, enquanto o Irã não o é. O Brasil não pode influenciar a política interna do Irã. Já a América Latina tem acordos regionais e uma coordenação de políticas capazes de subsidiar a democracia e prevenir a ocorrência de mais golpes militares no hemisfério. O único tema comum aqui é a recusa de Lula em render-se às prioridades de Washington. Os especialistas não poderiam ter previsto que o Partido dos Trabalhadores, conduzindo um ex-operário de fábrica à Presidência, pudesse ter feito o Brasil avançar como líder no palco diplomático mundial mais que qualquer governo anterior conseguiu. Mas Lula se tornou um dos líderes mais respeitados do mundo e, por essa razão, possui potencial singular de ajudar a resolver alguns dos conflitos políticos mais sérios do planeta. Era previsível que Lula fosse criticado por opor resistência aos EUA. Assim que Washington lança uma campanha contra um governo satanizado, a imensa maioria da mídia internacional adere a ela, e qualquer um que se opuser no caminho pagará um preço. Isso se aplica independentemente de o governo em questão ser uma teocracia repressiva, como o Irã, ou uma democracia, como Venezuela ou Honduras antes do golpe de junho. Em relação a todos esses casos, Lula vem assumindo uma atitude pautada por princípios e que atende aos interesses mais verdadeiros não apenas do Brasil, mas da humanidade. Nós, cidadãos dos Estados Unidos, apreciamos particularmente seus esforços para nos manter fora de mais uma guerra insensata, já que nossa própria sociedade civil e nossas instituições democráticas tão frequentemente não têm sido fortes o suficiente para fazê-lo. O mundo precisa desse tipo de liderança -precisa seriamente dela. MARK WEISBROTé codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington. Tradução de Clara Allain. |
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